Budismo e Cristianismo

Um estudo comparativo de dois caminhos de espiritualidade Por Luiz Vieira Marques

Luiz Vieira Marques - Filósofo formado pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Minas Gerais com licenciatura plena; sociólogo formado pela Universidade Federal de Minas Gerais com especialização em Sociologia Urbana: PUC-MG/ Unileste–MG.
O propósito deste estudo é ampliar o conhecimento dos leitores sobre as semelhanças e dessemelhanças entre estes dois caminhos de espiritualidade: budismo e cristianismo, possibilitando alargar as possibilidades de diálogo e entendimento.
Pretende-se também, sem maiores pretensões, contribuir para o grande debate sobre o que é bom para o homem, não só de forma pragmática ou positivista, mas fundamentalmente; não só de maneira filosófica ou abstrata, mas existencial e concreta; não só de forma psicopedagógica, mas num sentido incondicionalmente obrigatório e universal.
Neste sentido, a religião não deve ser analisada a partir do critério de verdade que afasta, que separa, que divide. A religião, no contexto atual, deve ser pensada a partir do critério ético geral do humano. Daí não podermos prescindir dos resultados da Psicologia, da Pedagogia, da Filosofia, da Sociologia e da Ciência Jurídica.


As diferenças são profundas


Do ponto de vista religioso, budismo e cristianismo são, inegavelmente, duas tradições mundiais, completamente diferentes. É impossível alguém ser cristão e, ao mesmo tempo, budista, ou vice-versa. Seria misturar fogo com água. São caminhos de espiritualidade radicalmente diferentes, principalmente quando se tem em mente os paradigmas vigentes do cristianismo.
Na sua essência, o cristianismo, juntamente com o judaísmo e o islamismo, são classificados como religiões reveladas: em que Deus fala aos homens. Uma religião revelada é caracterizada pela livre comunicação salvadora que Deus faz de si mesmo ao homem pecador, em Cristo, pela comunicação pessoal e, ao mesmo tempo, comunitária (Igreja).
Já o budismo situa-se no grupo das religiões classificadas como salvíficas. São aquelas religiões portadoras dos meios de que o homem precisa para salvar-se dos sofrimentos presentes e conseguir a felicidade. Neste grupo encontram-se, além do budismo, o confucionismo, o taoísmo, o hinduísmo. Estas religiões, como o fizeram Zaratustra, alguns filósofos gregos e profetas judeus, que, espiritualizando e aprofundando o pensamento, abriram caminho a uma religiosidade, ao mesmo tempo pessoal e universal.


Seguindo a trilha da pesquisa junguiana


O cristianismo, fiel à tradição do pensamento religioso ocidental, considera o homem inteiramente dependente da graça de Deus ou da Igreja, na sua qualidade de instrumento terreno exclusivo da obra da redenção sancionado por Deus.
O homem é infinitamente pequeno, um quase nada, enquanto a graça de Deus é tudo. E esta graça vem de fora. Provém de uma outra fonte: Deus.
“O homem está sempre em falta diante de Deus”, como dizia Kierkegaard.
No cristianismo, o homem procura conciliar os favores de Deus mediante o temor, a penitência, as promessas, a submissão, a auto-humilhação, as boas obras e os louvores.
Deus é um totaliter alter, o totalmente outro, absolutamente perfeito e exterior, a única realidade existente.
“Se modificarmos um pouco a fórmula e em lugar de Deus colocarmos outra grandeza, como, por exemplo, o mundo, o dinheiro, teremos o quadro completo do homem ocidental zeloso, temente a Deus, piedoso, humilde, empreendedor, cobiçoso, ávido de acumular apaixonada e rapidamente toda a espécie de bens deste mundo tais como riqueza, saúde, conhecimentos, domínio técnico, prosperidade pública, bem-estar, poder político, conquistas etc. Quais são os grandes movimentos propulsores de nossa época? Justamente as tentativas de nos apoderarmos do dinheiro ou dos bens dos outros e de defendermos o que é nosso. A inteligência se ocupa principalmente em inventar ’ismos’ adequados para ocultar seus verdadeiros motivos ou para conquistar o maior número possível de presas.”1
O budismo, seguindo a tradição oriental, sublinha o fato de que o homem é a única causa eficiente de sua própria evolução superior. Ao contrário do cristianismo, acredita na “auto-redenção”, ou seja, o homem é Buda e se salva por si próprio.
O budismo se baseia na realidade psíquica enquanto condição única e fundamental da existência. A psique é o elemento mais importante, é o sopro que tudo penetra, ou seja, a natureza de Buda; é o espírito de Buda, o Uno, o Dharma-kaya. Toda vida jorra da psique e todas as suas diferentes formas de manifestação se reduzem a ela. É a condição psicológica prévia e fundamental que impregna o homem em todas as fases de seu ser, determinando todos os seus pensamentos, ações e sentimentos.2


Apesar das diferenças, é imperativo o diálogo inter–religioso


Não obstante a radicalidade das diferenças, budismo e cristianismo são dois grandes caminhos de salvação que levam ao mesmo fim: a felicidade eterna. São dois caminhos que, muitas vezes, cruzam-se e sempre podem se enriquecer mutuamente.
Todos sabem que a relação de fraternidade é o primeiro e mais profundo dos laços existentes entre homens e mulheres, e que por isso a concórdia entre as religiões é condição prévia para a paz entre as nações. E não há concórdia entre as religiões se cada membro de uma religião trilha o seu próprio caminho de forma obstinadamente dogmática, fundamentalista, afirmando que a sua religião é a única verdadeira, que a fé que professa é superior às outras.
Budismo e cristianismo, ainda, nas suas diferenças e, consideradas em sua multidimensionalidade e universalidade, carregam imensurável riqueza histórica, filosófica e cultural. São parte e parcela da grande empresa coletiva de construção da sociedade humana. Ambas têm tentado levar os povos, cada uma com seus próprios métodos, a encontrar a distinção fundamentada entre verdadeiro e falso, amor, compaixão e ódio, solidariedade e egoísmo, tolerância e intolerância, moral e imoral, em todos os campos do pensar e do agir humanos.
No limiar do terceiro milênio, quem pratica uma religião com esta mentalidade, impregnada deste tipo de sentimento de intolerância, são pessoas desinformadas em relação a outros caminhos e sem compreensão, benevolência e amor para com os outros. A capacidade de diálogo é possibilidade de paz.


O primeiro colóquio inter–religioso


Abrindo perspectivas para o diálogo entre as grandes tradições religiosas, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) deu um importante passo, entre 8 e 10 de fevereiro de 1989, quando realizou o que chamou de colóquio inter–religioso entre hinduísmo, confucionismo, budismo, judaísmo, cristianismo, islamismo e religiões da África. O critério fundamental adotado foi o humanum — a dignidade humana, os verdadeiros valores humanos como critério universal, a interação dialética entre religião e humanidade, a possibilidade do consenso inter–religioso.
Foram as seguintes as conclusões daquele significativo diálogo:
a) A verdadeira humanidade é uma condição prévia da verdadeira religião. Ou seja, o humanum (o respeito pela dignidade humana e pelos seus valores fundamentais) é um requisito mínimo relativamente a qualquer religião; no mínimo, deve existir humanidade (é um critério mínimo), quando se pretende pôr em prática a verdadeira religião.
b) A religião verdadeira é a perfeição da verdadeira humanidade. Ou seja: a religião (enquanto expressão de um sentido transcendente, de valores elevados, de uma vinculação incondicional) constitui a condição prévia ideal para a realização do humanum: a religião (trata-se de um critério máximo) tem justamente de estar presente, sempre que se pretender pôr em prática os valores humanos como verdadeira forma de vinculação universal absoluta.3


Religião e paradigma


“Todo esforço é produtivo, quando metódico e
continuado!”, canta o excelente Renato Russo.
A presente exposição seguirá a perspectiva ontogenético-descritiva, com uma abordagem tópico-temática, visando-se realizar uma rápida análise da atual situação religiosa do budismo e do cristianismo, aplicando-se, como o fez, eficazmente, o filósofo e teólogo Hans Küng, no domínio da História das Religiões, a teoria dos paradigmas desenvolvida por Thomas S. Kuhn, no campo das Ciências Naturais.
Na definição de Thomas Kuhn, paradigma é uma “constelação de convicções, valores e técnicas. Uma constelação universal, una, consciente-inconsciente”.
Os paradigmas determinam a economia, o direito, a política, a ciência, a arte, a cultura, toda a sociedade.
No caso da religião, por exemplo, o budismo primitivo da Índia, o cristianismo medieval, o Budismo Mahayana e suas diversas escolas são paradigmas.
Para tornar clara a distinção entre paradigma e religião, eis alguns exemplos: uma pessoa, por exemplo, é adepta do BudismoTibetano e converte-se ao Budismo de Nitiren Daishonin. Neste caso, essa pessoa mudou de paradigma, não de religião. Outra, era católica e converteu-se à Igreja Evangélica Luterana, também não mudou de religião, apenas de paradigma. Outra, ainda, era membro da Igreja Presbiteriana e converteu-se ao Budismo de Nitiren Daishonin. Neste caso, mudou de religião.


Conforme divulgado, este espaço dedica-se ao esclarecimento de dúvidas a respeito da matéria “Budismo e Cristianismo — Semelhanças e Diferenças”, publicada no Especial da edição de junho, elaborada pelo Dr. Luiz Vieira Marques, membro do Núcleo de Estudos de Religiões do Departamento de Cientistas da BSGI.
Questão: Na página 7 consta a seguinte frase: “Não obstante a radicalidade das diferenças, budismo e cristianismo são dois grandes caminhos de salvação que levam ao mesmo fim: a felicidade eterna.” Isto quer dizer que mediante outras práticas também é possível atingir a iluminação?
Edegar Ozório da Silva, Santa Maria, RS.

Em primeiro lugar, gostaria de esclarecer o que é felicidade eterna para cada uma dessas religiões.
a) No cristianismo
O místico, jesuíta e paleontólogo Pierre Teilhard de Chardin, uma das maiores expressões da atualidade Teológica, em palestra proferida na China dizia: “Não pretendo fazer Metafísica nem Apologética. Mas voltarei, com os que quiserem me seguir, a Ágora. E aí, todos juntos, ouviremos São Paulo dizer à gente do Areópago: “Deus, que fez o Homem para que este o encontre, Deus a quem tentamos apreender pelo tatear de nossas vidas, esse Deus é tão difundido e tangível quanto uma atmosfera em que nos banhássemos. Ele nos envolve por todos os lados, como o próprio Mundo. O que vos falta, pois, para que possais estreitá-lo? Uma única coisa: vê-lo.”1
“A alegria do elemento que se tornou consciente do Todo ao qual serve e no qual se consuma — a alegria obtida pelo átomo reflexivo no sentimento de seu papel e de sua completação no seio do Universo que o carrega: tal é, de direito e de fato, a mais alta e a mais progressiva forma de felicidade que me seria possível propor e desejar aos senhores.”2
A verdadeira felicidade, como acabamos de precisar, é uma felicidade de crescimento, e, enquanto tal, espera por nós numa direção exata:
1. Pela unificação de nós mesmos no âmago de nós mesmos;
2. Pela união de nosso ser com outros seres, nossos semelhantes;
3. Pela subordinação de nossa vida a uma vida maior que a nossa.
Portanto, três fases, três passos, três movimentos sucessivos e conjugados são identificáveis no exame do processo de nossa unificação interior, isto é, no processo de nossa personalização. Para ser plenamente ele próprio e vivo, o Homem deve: centrar-se em si; descentrar-se sobre “o outro”; supercentrar-se num ser maior que ele mesmo. São os três tempos da personalização.
São as três formas de beatificação. São as três regras fundamentais da felicidade.3
b) No Budismo de Nitiren Daishonin
Felicidade eterna ou absoluta seria uma condição de vida inabalável atingida mediante a compreensão de que a Lei, ou a essência de todos os fenômenos, e a nossa vida são unas e inseparáveis.
É por essa razão que Nitiren Daishonin afirma: “Não há felicidade maior para os seres humanos do que recitar o Nam-myoho-rengue-kyo.”4
Mas recitar o Nam-myoho-rengue-kyo não é um ato de piedade, uma espécie de prática devocional, a simples recitação de uma prece. É fazer brotar das profundezas da vida a energia para manifestar o mais elevado estado de vida, o de Buda, e “conduzir as pessoas ao caminho supremo e fazer com que adquiram, rapidamente, o corpo de um Buda”.5 Ou seja, a felicidade atingida com a recitação do Daimoku não se restringe a si, mas abrange todos os outros.
“Ter fé”, orienta o presidente Ikeda, “significa viver de forma fiel a nós mesmos, como somos, e atingir um estado em que podemos dizer francamente: ‘Ah!, esta é a verdadeira satisfação’, ‘Minha vida é uma grande vitória’. Esta é a ‘paz e felicidade’. Todos, sem exceção, procuram a paz e a felicidade. Uma pessoa pode perseguir os ‘tesouros do cofre’, enquanto outras, os ‘tesouros do corpo’, como posição ou riqueza. Mas a verdadeira felicidade está em acumular os ‘tesouros do coração’. E a essência dos tesouros do coração é um grande estado de vida totalmente dedicado à fé. No entanto, essa não é uma felicidade que pode ser obtida por meio da satisfação dos anseios ou dos desejos. É uma questão de experimentar a ilimitada alegria da Lei – de receber livremente e desfrutar a felicidade derivada da Lei que surge em nossa vida. Cada um de nós pode definitivamente atingir esse estado de paz e felicidade. E como essa paz e felicidade derivam de nossa vida, são duradouras.”6
Ele diz ainda: “O Nam-myoho-rengue-kyo é a Lei, mas ao mesmo tempo é também a vida do Buda. A pessoa e a Lei são unas. E a unicidade de Pessoa e Lei é o ponto mais importante. Embora possamos falar da Lei como se ela fosse uma entidade independente, se realmente fôssemos separá-la da Pessoa (o Buda) se tornaria nada mais do que uma construção teórica. O que o Buda concretiza é a Lei. Na verdade, a Lei jamais existiria separada da sabedoria do Buda. O Buda e a Lei jamais podem ser separados.
“O Buda do tempo sem início, ou kuon ganjo, o Buda que existe eternamente sem início ou fim é a própria vida do Universo. É o constante e incessante trabalho de conduzir todas as pessoas à iluminação, sem um instante de pausa. De fato, esse Buda eterno e nós próprios somos um só. Isso significa que nós próprios viemos trabalhando para conduzir as pessoas à felicidade empenhando-nos pelo Kossen-rufu desde o remoto passado, e não somente nesta existência. Essa conscientização é o âmago do capítulo ‘Revelação da Vida Eterna do Buda’.
“Quando nosso ponto de vista expande-se do presente para a totalidade de todo o eterno Universo, despertamos para a nossa profunda missão de vida.”7
Essas palavras do presidente Ikeda traduzem o significado de atingir o estado de Buda ou a iluminação. Elas nos mostram que para atingi-lo precisamos, além da perfeita conscientização de nossa unicidade com a Lei, cumprir a missão do bodhisattva ou agir pela felicidade dos demais.
No Budismo de Nitiren Daishonin, não praticamos a fé para somente nós atingirmos o estado de Buda. Surgimos como Bodhisattvas da Terra para ensinar a todas as pessoas a recitarem o Nam-myoho-rengue-kyo a fim de que façam a revolução humana, consigam a transformação interior, engajando-se também na luta pelo Kossen-rufu. É assim que podemos manifestar a natureza búdica: lutando para que outras pessoas “adquiram o corpo de um buda”.8
Os Bodhisattvas da Terra são eternos ativistas que têm como base a Lei Mística. Sua vida é um eterno avanço. Quando manifestamos a energia inerente desses bodhisattvas, causamos o “emergir dos Bodhisattvas da Terra de dentro de nosso próprio ser. Agindo dessa maneira, podemos destruir a barreira do ser insignificante que tem limitado nossa vida”.9
Respondendo a questão: não é possível com práticas religiosas não budistas atingir o estado de Buda, por não haver a prática do Bodhisattva e a recitação do Nammyoho-rengue-kyo.
Religiões como o judaísmo, o cristianismo e o islamismo conseguem conduzir as pessoas à felicidade eterna, de acordo com a visão que têm de felicidade eterna: o encontro “face a face”, definitivo com Deus, na concepção de São Paulo, a fusão com o Todo, a incorporação de todos os seres no Cristo Cósmico, como queria Teilhard, São João da Cruz, Santa Tereza d’Ávila. Nunca o estado de Buda. Sem abraçar os conceitos da vacuidade, da continuidade da vida em infinitas existências, da unicidade dos seres e a essência do Universo não é possível a outras tradições religiosas levar os seres humanos a atingir o estado de Buda.
NOTAS 1. CHARDIN, Pierre Teilhard de. Le Milieu Divin: Essai de Vie Intérieure (O Meio Divino: Ensaio de Vida Interior). Paris, Éditions du Seuil, 1957, pág.17. 2. Cf. CHARDIN, Pierre Teilhard. Mundo, Homem e Deus; textos selecionados e comentados por José Luiz Archanjo, 2ª ed., São Paulo, Editora Cultrix Ltda., MCMLXXX, págs. 74-81. 3. Ibidem. 4. The Writings of Nichiren Daishonin (Os Escritos de Nitiren Daishonin), pág. 681. 5. The Lotus Sutra (O Sutra de Lótus), cap. 16, pág. 232. 6. Brasil Seikyo, edição nº 1.447, 7 de fevereiro de 1998, pág. 3. 7. Ibidem, edição nº 1.491, 16 de janeiro de 1999, pág. 3. 8. The Lotus Sutra, cap. 16, pág. 232. 9. Brasil Seikyo, edição nº 1.141, 7 de março de 1998, pág. 4.

a) A busca da espiritualidade no budismo, como nas demais tradições religiosas orientais, consiste na construção de um caminho que leve a uma experiência de totalidade. É fazer uma experiência de não-dualidade. “Isso equivale a dizer: sentir-se pedra, planta, animal, estrela, numa palavra, sentir-se Universo. No Budismo de Nitiren Daishonin, busca-se descobrir o Myoho-rengue-kyo que se encontra em todas as coisas fazendo-se com que todas as pessoas compreendam e experimentem esta verdade. Cada ser possui dentro de si a Lei Mística (o segundo presidente da Soka Gakkai, Jossei Toda, preferia usar a expressão “vida” em lugar de “Lei”), o Myoho-rengue-kyo. Unindo-se a esta que é a essência última de todos os fenômenos, unimo-nos também e mergulhamos na harmonia profunda do todo.
“Não existe felicidade maior para um ser humano do que recitar o Nam-myoho-rengue-kyo”, garante-nos Nitiren Daishonin.
É fantástico viver o Budismo do Sutra de Lótus. Viver a experiência cotidiana do encontro com o Gohonzon, na interioridade de nós mesmos, com intensidade, na dimensão e na profundidade que o presidente Ikeda nos ensina, imbuído da consciência de que “o que importa é o coração”. Viver, não apenas “praticá-lo, racionalmente, como “religião”, como organização, no paradigma tradicional de “credo, código e culto”.
A vivência da fé, desta forma, alimentada pelo insondável mai-ji-sa-ze-nen (“medito constantemente”), ou o desejo do Buda, cria e desenvolve um centro interior com tal força e vigor que sateliza toda a realidade ao redor, refazendo a percepção da totalidade. “E nós nos movemos nessa totalidade como em nossa casa, com profunda serenidade, sem nenhum medo, porque nada pode ameaçar-nos, tudo está envolto ao redor desse centro poderoso” conseguido pelo Daimoku. Basta que seja um Daimoku de coração, harmoniosamente cantado sob o impulso da fé genuína; impregnado do espírito da gratidão que caracteriza a relação de mestre e discípulo, grávido do juramento do Buda: o “grande desejo de ampla propagação”, alicerçado no compromisso, sem restrições, de viver cada momento do dia ou da noite como um bodhisattva/Buda, trilhando um caminho ético extremamente coerente”.10
É impossível ser infeliz, avançando por este caminho de transformação.
Ao recitar o Daimoku do Sutra de Lótus, portanto, estamos buscando a comunhão com o todo (o Universo cósmico), nele incluindo o Myoho-rengue-kyo. 
b) O caminho do cristianismo e das outras religiões ocidentais, na perspectiva contemporânea, no paradigma atual, é o caminho da exterioridade. É a conquista do espaço exterior. Busca-se a comunhão com Deus, nele incluindo o todo.
c) Pensando no cristianismo em termos de antigos paradigmas, vê-se nesta religião mundial a forma de “religião” baseada na idéia de resposta obediente do homem a uma revelação divina. Uma religião de credo: a revelação da existência de Deus, por sua existência, por sua vontade e no seu projeto de universo, de código: a lei, o modelo, divinamente revelada que o homem deve seguir; o culto que é o método de adoração divinamente revelado pelo qual o homem se relaciona com Deus por meio de orações, rituais e sacramentos.11
Hoje, no entanto, o cristianismo é repensado. Retoma-se a experiência judaico-cristã centrada no encontro, do diálogo Deus–Homem, uma relação pessoal e dialogal; um encontro eu–tu, encontro entre desiguais, que pela abertura, a amizade e o amor estabelecem comunhão e inauguram uma aliança. Longe daquela perspectiva vertical: Deus no Céu mandando e o homem na terra obedecendo. O paradigma cristão contemporâneo retoma a experiência mais radical dos grandes profetas, de Moisés e de Pedro. Uma experiência fundamentalmente amorosa, em que o cristão se sente envolvido pela realidade divina. Dá-se aí um encontro na totalidade que move a interioridade. Retoma-se a experiência dos grandes místicos cristãos: João da Cruz, Teresa d’Ávila, Francisco de Assis, em sua mística cósmica, e mestre Eckart. Experiência de enamoramento, de amorosidade, de encontro, não de obediência e de temor.
Deus, neste paradigma, não é o Senhor, Todo Poderoso, Rei, Monarca, ontologicamente diferente do homem, no caso, súdito, mas um Deus presente em todas as coisas, e vice-versa. Um Deus que está na profundidade do coração do homem e, por isso, não existe distância entre um e outro. “Nele nos movemos. Nele nós somos, como recordava São Paulo a seus interlocutores na praça pública de Atenas. Estamos Nele como dentro do ar que respiramos. E Ele está em nós como nossos pulmões vivificados de ar.”12
Para o grande místico cristão do século XX, Teilhard de Chardin, em sua obra Le Milieu Divin (O Meio Divino), nós estamos dentro de Deus. Nunca saímos de Deus, nem vamos a Deus. A tarefa da fé é descobrir esse Deus que está presente em todas as coisas, mas oculto sob mil sinais. O Universo é um grande sacramento. A matéria é sagrada. A natureza é espiritual. Por quê? Pergunta ele. Porque a natureza é templo de Deus. Deus está em tudo e tudo está em Deus, tudo se reflete dentro de Deus. O Universo não é indiferente a Deus, pois está no Seu coração e pertence ao reino da Trindade.13 
Se estudarmos os capítulos 11º (“Surgimento da Torre de Tesouro”), 15º (“Emergindo da Terra”) e 16º (“Revelação da Vida Eterna do Buda”) do Sutra de Lótus, ancorados nos escritos de Daishonin e na interpretação do presidente Ikeda, vamos encontrar muito mais semelhanças, muito mais pontos de convergência do que dessemelhanças, pontos de divergência entre o budismo e o cristianismo. Não são caminhos antagônicos. São experiências complementares de espiritualidade.
É claro que este diálogo, estas semelhanças e convergências só são detectáveis se tomarmos como referência não o budismo primitivo, da “lei de causa e efeito”, entendida como retribuição (“bateu, levou”) e que o presidente Ikeda chama de causalidade “convencional”; ou o cristianismo fundamentalista dos círculos fechados.
É muito difícil enxergar semelhanças, virtudes e convergências no outro onde existe e não se deseja abandonar o sectarismo, a arrogância, o fanatismo, o convencimento de que se é dono da verdade.
Somente a compaixão é capaz de mudar os rumos deste mundo onde milhões e milhões de pessoas são vitimadas pela cruel competição do mercado globalizado, onde a pobreza e exclusão social, em nível mundial, e a sistemática agressão ao sistema da Terra, juntos, põem em risco o futuro do nosso planeta. 
Compaixão (karuna) é princípio gerador de um sentido global de vida. É, historicamente, reconhecida como a maior contribuição que o budismo ofereceu à humanidade. Neste sentido, significa desapego total do mundo e, simultaneamente, o cuidado essencial com o mundo.
No judeu-cristianismo, compaixão é “rahamim”, uma forma de misericórdia. Em hebraico significa “ter entranhas” e por elas sentir a realidade do outro, particularmente daquele que sofre. É co-sentir mais do que o entender, é mostrar a capacidade de identificação e de compaixão com o outro. A misericórdia é considerada a característica básica da experiência espiritual de Jesus. 
No Budismo do Sutra de Lótus, a compaixão, tão bem traduzida e sintetizada na frase “mai-ji-sa-ze-nen”, concretiza-se no “grande desejo do Buda Original Nitiren Daishonin. Refere-se “ao ilimitado desejo que surge da iluminação do Buda, o “desejo original da vida” de propagar os ensinos que levam as pessoas à felicidade. 
Ser compassivo e benevolente é viver, na perspectiva do juramento de Nitiren Daishonin, construindo, passo a passo, o Kossen-rufu na interioridade de si mesmo, buscando a transformação pessoal, conduzindo uma vida alegre, confiante, dominando emoções destrutivas como a raiva, o ódio, rancores, invejas, ciúmes, intrigas, na convivialidade do lar, da vizinhança, do trabalho, da escola, da comunidade religiosa, enfim em qualquer nível de relacionamento humano e com todos os seres vivos.